Tuesday, August 21, 2012

RECORDANDO


Firmo de Santana

Acordes de violões nas ruas sombrias...
As serenatas que já vão distantes...
Valsas que embeveciam... As melodias
Que não esqueço, nem os priscos amantes.

O saudoso "Xixi" e seus delirantes
Sopros no saxofone. Que magias
De pulcra execução saiam constantes
Do almo Mago naqueles longes dias.

José "Fogueteiro" e "Chico Bombardão",
Ramalho, o saudoso Alfredo Leite,
Quatro titãs do nosso bom tempão.

Recordar essa gente é ter canteiros
De prazer, de boa música, o deleite
De escutar uma endecha de CALHEIROS.
(Foto do Livro "Os Aldeões de Garanhuns" de Alberto da Silva Rêgo. Alfredo Leite Cavalcanti e sentado o Poeta Catulo da Paixão Cearense, ano de 1938).

Monday, August 20, 2012

RETRATOS



Rinaldo Souto Maior 11/1986

Ao poeta e "Mochileiro" José Inácio Rodrigues. (in memoriam)

Na Boa Vista vejo, no alto da casa
paroquial, bebendo vinho de missa,
Padre Cornélio e o boêmio Zé catão
Na voz langrosa de Wilson da Mota
o poeta intangível de Hélio Peixoto,
ressuscitando todos ouvidos:
"Garanhuns terra dos seus avós, terra
das manhãs frias e dos bonitos arrebóis"...
Ao fundo acordes musicais do violão de
Euclides Pernambuco.

Velhos retratos malogrados e pelo
tempo amarelecidos que, de repente,
em minhas lembraças, tomam forma.
Revivem fortes cores, multicoloridas,
nas entranhas recordadas.
Esses retratos...
Refazem imaginações e espectros do passado.

Conta-corrente acesa apenas pela chama
temporal do sucesso, o mundo somente
reconhece êxitos e não perdoa malogros,
na verdade de um filósofo chinês.

Contabilização difícil do passado com
o presente, na aritmética heterogênea das pessoas.
Que se somam menos.
Então poeta que em São Paulo nasceste de migrantes
nordestinos, "mochileiros" quatrocentões da boa cepa
garanhuense?
Quantas coisas tens recitado em todos entreveros
das lutas empreendidas, das vitórias auferidas, e dos
malogros também amargados?

Tudo isso na multiplicação de tantos "amigos meus,
amigas minha" no refrão do boa-noite radiofônico em que
evocas o passado, perenizando-o no presente!
(Na foto: Antiga Padaria Royal, hoje Padaria Suiça).

Sunday, August 19, 2012

O VELHO GENERAL


José Rodrigues da Silva (in memoriam)

Cabelos brancos e carapinhados, lábios grossos e maxiliar inferior visivelmente saliente, surgiu nesta cidade, lá pelas bandas do Sítio Várzea, um preto velho que atendia pelo apelido de General. O mundo inteiro vivia a tirania da segunda guerra mundial. A rapazeada dividia-se em opinião, muitos procuravam o Exército para voluntariamente irem à guerra; outros fugiam para lugares mais distantes, enquanto isso, várias nações pegavam fogo. Nos dias de domingos ou feriados, as pessoas adultas reuniam-se para falar sobre os acontecimentos bélicos, ali, também, estava o velho General. Com seus oitenta anos e não perdendo tempo, General dizia haver servido na Guerra do Paraguai, ao lado do General Osório:

-Combati valentemente as forças de Solano Lopes e trouxe a vitória para o Brasil. Estou no final da vida, mas se me derem as mesmas armas daquele tempo, irei sozinho para a Alemanha, arrancar de unhas o bigode de Hitler.

Essas aventuras contadas pelo preto velho, valeram-lhe o apelido de General. General era diferente de muitas pessoas que se zangam quando tratadas por apelido. Ele quando passava por alguém que lhe chamava de General ao invés de ficar zangado balançava a cabeça em sinal de agradecimento, como que exigindo respeito. Quando alguma pessoa perguntava por sua origem, respondia:

-Sou filho de Africanos, pertenço a raça que colaborou para o engrandecimento deste país durante sua colonização.

General não respeitava os anos, trabalhava de sol a sol no eito dos fazendeiros de café da região, e quando tinha alguma folga cuidava de sua pequena roça, o espojeiro, como ele mesmo chamava. Os anos foram passando e com eles foram desaparecendo o vigor físico do velho guerreiro. Um certo dia General recebeu um ultimato de um certo fazendeiro que o mesmo teria vinte e quatro horas para deixar a fazenda. Aqui não tem lugar para quem não pode trabalhar.

No mesmo dia, às quatros horas, de alforje às costas se despedia do Sítio Várzea e também daquele para quem na mocidade dera tudo para seu enriquecimento. Sem forças e sem dinheiro para realizar uma grande viagem, General se localizou numa casa velha existente na Rua das Tábuas, nas proximidades da Vila Maria pertencente ao Capitão Tomaz da Silva Maia. Alí seria o local ideal para o preto velho que carregava noventa anos pedir esmolas. Meses depois, desabou uma parede do casebre onde residia. Como reconstruir, se não dispunha de um tostão, e as esmolas que recebia davam somente para alimentação. De repente, veio-lhe uma idéia, pedir ao prefeito do município uma ajuda de alguns tijolos e telhas retiradas das construções da prefeitura. Na época, o prefeito era Dr. Celso Galvão que embora sendo civil, era militarista de coração. Apoiado num cacete que lhe servia de pernas, subiu a ladeira do açude e veio em direção a prefeitura falar com o interventor. Com grande esforço conseguiu chegar até ao local desejado. Mas, como falar com Dr. Celso Galvão se ninguém legava para sua pessoa. Triste e de cabeça baixa, sentado nas escadaria do prédio, esperava uma difícil oportunidade para se avistar com o chefe do município. De repente, inesperadamente, passou por ali o Jornalista Ulisses Pinto que ia em direção ao gabinete do prefeito. Como todo mundo sabe, Ulisses sempre foi o maior encrenqueiro político desta cidade. Com medo das encrencas de Ulisses, Celso Galvão lhe dava passagem livre. Penalizado, o Jornalista perguntou ao velho General o que estava fazendo aqui, e de lágrimas aos olhos, General contou a Ulisses a razão de sua vinda a prefeitura. Minutos depois estavam chorando os dois. Foi ai que Ulisses falou : O senhor fala agora mesmo com o Dr. Celso.
Como sabia do prestígio que Celso Galvão desfrutava nos meios militares, ao entrar no gabinete, disse:

- Dr. Celso, o General faz uma hora que espera para falar com o senhor.

Dr. Celso pulou da cadeira, chamou o contínuo e disse:

- Arrume imediatamente o gabinete que eu vou receber um General.

Ulisses Pinto por haver mentido procurou dar o fora, porém minutos depois foi introduzido no gabinete do prefeito, o preto velho. Celso ficou danado de raiva com Ulisses, porém, como já o conhecia nada procurou fazer, entretanto atendeu ao General de mentira. Assim viveu General no meio da sociedade sem ser visto por ela. Talvez, quem sabe, seja hoje, no céu um General de verdade. (Fonte: Livro "Almas Anônimas", foto: antigo Cine Glória Avenida Santo Antonio, século passado, arquivo pessoal).

Friday, August 17, 2012

CANÇÃO


Ao Dr. Souto Filho

Belarmino da Costa Dourado

Acorda mulher formosa,
Junto as águas de crystal
A lua já beija a rosa,
Num beijo nupcial.

Entre as molhas orvalhadas
Dormem os sylphos sonhando,
Ao som brandas toadas
Dos bardos, que vão cantando.

Acorda, o rio, o outeiro,
Se desata em mil canções,
Desde as trovas do barqueiro
Aos cantos das solidões.

Vém em minha alma os fulgores
Plantar da fé que preciso;
Sorrirás, flor dos amores,
Basta-me a luz de teu riso.

Cresce a noute, abre a janella
Que o luar banha de luz;
Desperta, é linda a aquarella
Que a natureza produz.

Já da aurora a branca estrella
Se esvae, qual pallida flor.
Ficas dormindo donzella,
Quanto tudo diz amor?

Acorda, etherea falúa,
Num voar subtil de luz,
Lá do céo descendo a lua.
Boia nos lagos azues.

Vém ouvir a voz plagente
Da guitarra harmoniosa,
Que além se ouve dolente
Na noite silenciosa.

Vém ouvir, que a noute expira
No seio da creação,
"Na extrema corda da Lyra,
A derradeira canção".
(Fonte: Jornal "O Sertão" maio de 1919.)

Manoel Gouveia "Um Amante da Músico e do Canto"


Manoel Vicente da Cruz Gouveia nasceu em Água Preta-PE, à 13 de fevereiro de 1902, chegando a esta cidade no início de 1919. Ficou encantado com o nosso clima em pleno verão e por aqui resolveu ficar trabalhando como comerciário. Torna-se grande amigo do cantor Augusto Calheiros, onde ficaram frequentes muitas cantorias dos dois boêmios por nossa cidade.

Foi um dos fundadores do Sport Club em 1919, onde participava das "Horas de Arte", editou em 1934 a revista "Escolas" de distribuição gratuita e participou da diretoria da Sociedade de Cultura. Logo se junta ao Grupo Polimático, em todas suas fases, com Maria Augusta dos Santos e outros afeiçoados à arte cênica, também se incorporando ao "Coro" da Catedral de Santo Antonio acompanhado de Marcelino Batista, Israel Carvalho(violinistas), e o Padre Godoi. Onde houvesse música e canto Manoel Gouveia lá estava, e como excelente cantor tomou parte em programas saudosistas da Rádio Difusora de Garanhuns(Rádio Jornal).

Em 1928 instala em nossa cidade a Tipografia e Livraria Escolar, ficando como uma de suas marcas a sua maneira alegre e carismática em atender as pessoas, sempre com um belo cantar. Faleceu em 30 de novembro de 1998 aos 96 anos.

Wednesday, August 15, 2012

Soneto


Raimundo Athanásio de Moraes (Dezembro de 1975)

Não lamentes viver entre a maldade,
Porque disso é que vive a criatura;
Bem sabes que o sofrer da humanidade
Faz parte desse mal que nos tortura.

Anos e anos, desnudos e sem bondade,
Noites ingratas, dias sem ventura,
Sombras de vidas, justiça, verdade,
Lares inteiros cheios de amargura...

Visão distante, a despertar tristeza,
Volvendo o tempo em infernal crueza,
Ofuscas résteas nos olhares santos...

Enfim, crueldades, sofrimentos, prantos...
Retalhos de penúrias, desencantos,
Nesse conjunto rico de pobreza.
(Foto: Bairro de Heliópolis, início do século passado)

Tuesday, August 14, 2012

ABDIAS DE NORONHA BRANCO


"Seu Abdias"(foto) como era chamado foi um bravo lutador pela vida, como empresário e político por sinal dos mais honestos de nossa terra. Abdias de Noronha Branco, entra, na história desta cidade que ele tanto amou como um homem de bem a toda prova.

No campo da política foi vereador, vice-prefeito e prefeito desta terra que lhe serviu de berço. Da santa terrinha das "Colinas Verdejantes".

No passado ou seja na República Velha, acompanhou o intimorado Souto Filho seu parente, o maior chefe político de todos os tempos, ao lado do seu primo Elpídio de Noronha Branco. Depois seguiu os passos ao lado de outros políticos, com o Dr. Cleofas de Oliveira. Abdias Branco, pela sua liderança após o ano de 1945, firmou-se como chefe da oposição entre nós, presidindo a UDN de velhas recordações ao mesmo tempo que Elpídio Branco, eleito deputado estadual pelo PSD ficou contrário aos seus princípios. Antes de 1930, Abdias Branco foi Delegado de Polícia de Garanhuns, onde demonstrou espírito de justiça e de galhardia. Mas, como política da noite para o dia, novamente estariam juntos Elpídio e Abdias pois como é sabido, o correligionário de hoje, poderá ser o adversário de amanhã. Isto é uma constante da vida política brasileira. Após e redemocratização (1945) iniciamos nossa vivência democrática ao lado de "seu Abdias", Francisco Figueira, Ernesto Dourado(sogro de Abdias), Jorge Branco, seu irmão, Deusdedit Maia, José Vaz da Costa, Othoniel Gueiros, Alfredo Leite Cavalcanti, Raimundo Cavalcanti, Aloísio Pinto e de tantos outros cobras da UDN.

No campo dos esportes, Abdias Branco pertenceu a diretoria do Esporte Clube de Garanhuns, onde deu provas do seu valor. Como vice-prefeito, ocupou o cargo de prefeito deixado pelo Dr. Luiz da Silva Guerra, onde demonstrou ótima capacidade de trabalho. A bela Avenida Dantas Barreto foi toda remodelada por "seu Abdias".

O atual bairro de São José, na sua parte alta que é chamado pelo povo de bairro da Brasília, onde foram edificadas dezenas de casas sobre os auspícios do antigo IPASE. Aquelas terras era de Abdias Branco e foi ele o condutor das referidas construções e fazia gosto muitas vezes ver o mesmo dirigindo um trator. O trabalho sempre o empolgou. Seria até justo que o bairro da Brasília fosse chamado de "bairro Abdias Branco" em sua homenagem, pois em vida ele foi um grande homem público e deixou uma marca exemplar e de uma transparência edificante para os garanhuenses.

A história saberá guarda-lo no "portal da glória". Seu perfil de homem sincero e trabalhador, ficará na lembrança de seus parentes "mochileiros" e dos que o conheciam de perto. Faleceu em 6 de fevereiro de 1989.(Fonte: Coluna "Politicando" do Saudoso Jornalista Ulisses Pinto, Jornal "O Monitor" em fevereiro de 1989).