Thursday, December 27, 2012

MEMÓRIAS

Antonio Gueiros

Eu tinha nove anos de idade e cursava 0 2º ano primário. Me lembro como se fossa hoje, o desfile do "15" para inauguração do monumento construído no Alto da Boa Vista em comemoração do Centenário da Independência do Brasil em 7 de setembro de 1922. A passeata partiu do Colégio à Rua Dantas Barreto. Quanta alegria e entusiasmo da criançada! O Diretor do Colégio era o Dr. W. Wilhem Thompson. As professoras orientavam os alunos no sentido do bom comportamento. Todos os demais colégios e o povo de Garanhuns participaram do evento. Muitos foram os oradores cujos nomes não me lembro.

O segundo Diretor do "15" foi o Dr. W. Taylor. Lembro-me quando este Missionário e sua esposa D. Júlia chegaram à Garanhuns. Foi uma festa, onde compareceram professores e alunos. Os Diretores Dr. Thompson e o Dr. Taylor foram  muito honrados pelos pais de alunos e o povo da cidade. O Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo era pregado diariamente com todos os alunos presentes no salão nobre do Colégio. Salvo melhor juízo  o novo prédio no Arraial foi inaugurado em 1928, quando deixou as dependências da Rua Dantas Barreto. Foi uma luta muito grande para que o Colégio fosse reconhecido pelo governo. Tive uma grande professora de Geografia e outras matérias, foi D. Noemi Fialho Marinho, de quem sempre me lembro pela sua maneira honesta e carinhosa e simpática de ensinar e tratar os alunos.

O "15" sempre foi naquela época, um educandário de grande prestígio nacional, haja visto o grande número de rapazes e moças que vinham de diversos estados: Pará, Maranhão, Ceará, Paraíba, Alagoas, etc, para estudarem no 15 de Novembro.

Um fato digno de nota era a Sociedade Literária 15 de Novembro, que às sextas-feiras havia uma sessão no Salão  Nobre para que os alunos recitassem poesias, sonetos etc. Eram escolhidos os alunos para cada sexta-feira, e todos os alunos do Colégio participavam. Os professores eram os juízes para determinar o melhor declamador para efeito de nota. No final no ano havia a grande festa de declamação e discurso. No final os juízes declaravam a melhor declamadora e o melhor discurso, das moças e rapazes respectivamente.

A moça e o rapaz recebia uma medalha de ouro, cada. Os juízes eram as personalidades mais  cultas da cidade escolhidos pelo Diretor. Para este evento compareciam os pais dos alunos abrilhantando à festa.

Estas foram lembranças que tenho do tempo em que estudei no Colégio 15 de Novembro, 1922/1931.
(Foto:Os Gueiros, tradicional família Garanhuense ano de 1949 comemorando os 45 anos de casamento do casal Antônio Gueiros e D. Maroca. Da esquerda para direita: os filhos Francisco, Ebenezer, Ruben, Antônio, Absague, Uziel, Othoniel e Israel. Fonte da Pesquisa: Livro Colégio Quinze 85 anos servindo à Deus, à Pátria e a Garanhuns, de Marcílio Reinaux e Urbano Vitalino).

Tuesday, December 25, 2012

Fundado instituto para resgatar a história e a cultura de Garanhuns



Colunata, centro de Garanhuns - Década de 50
Do Blog do Ronaldo César

No último sábado, 22, na Academia de Letras de Garanhuns, um bom número de professores, artistas, profissionais liberais, estudantes, etc, fundaram o Instituto Histórico e Geográfico de Garanhuns, ou simplesmente Instituto Garanhuns, entidade que tem por finalidade estudar, resgatar e proteger o patrimônio histórico, geográfico e cultural de Garanhuns, uma espécie de Iphan municipal. A entidade foi idealizada pelo pesquisador Audálio Ramos Machado Filho.
 O estatuto da entidade foi apresentado, discutido e aprovado, e todos os participantes foram considerados fundadores, porém, como a instituição é aberta, aceitará a associação de novas pessoas, tratando-se de uma entidade privada sem fins lucrativos.
 A responsabilidade da presidência ficou com o professor de história Cláudio Gonçalves, que é também escritor, e já contou a história romanceada da hecatombe de Garanhuns em seu livro "Os Sitiados". Audálio Filho ficou com a vice-presidência. 
 Alguns diretores foram eleitos na ocasião, ficando assim composta a diretoria:

Presidente: Cláudio Gonçalves de Lima
Vice-presidente: Audálio Ramos Machado Filho
Secretária-geral: Ivanice Ramos
Diretor Fiscal: Anchieta Gueiros
Diretor de Cultura: Prof. Antônio Vilela (também professor historiador)
Diretor de Comunicação: Ronaldo Cesar Carvalho
Conselho Fiscal: Igor Cardoso, João Marques (escritor, presidente da Academia de Letras) e Edmilson Vieira (artista plástico).

Cláudio Gonçalves publicou em sua conta no facebook: “Quero agradecer aos amigos pela votação para presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Garanhuns, um desafio, mas antes de tudo uma missão que irei abraçar com toda dedicação e honrar a confiança de pessoas que amam Garanhuns e desejam que a sua história e sua cultura sejam conhecidas pelas novas gerações, e ao lado de vocês, com a confiança em Deus, tudo será possível.”

As reuniões do Instituto Garanhuns serão abertas e amplamente divulgadas pelos meios de comunicação.

Monday, September 10, 2012

GARANHUNS ANTIGO: A FAZENDA DA VÁRZEA


Rinaldo Souto Maior maio/1987

Em 1918, final da I Grande Guerra Mundial, o Major Antônio Alves Pedrosa, recém chegado de São Vicente, então jurisdicionário ao município de Bom Jardim, adquiriu do Coronel Bimbe Tororó, pela vultuosa importância de dezoito contos de réis, a Fazenda da Várzea, e lá construiu o imponente solar que foi a residência de sua tradicional família, durante muitos anos. Defronte do solar o Major Pedrosa mandou construir uma pequena rua de casas de alvenaria, onde se instalaram alguns de seus administradores rurais, dentre eles, Melquisedeck Alves Pedrosa, seu sobrinho e compadre do meu pai.

Com o produto da venda da Fazenda da Várzea ao Major Pedrosa, o Coronel Bimbe Tororó construiu mais de cinco dezenas de casas, em Garanhuns, sendo seis na rua do Recife, na época uma das principais da cidade. Essa mesma rua do Recife onde o filho, jornalista Dario Rêgo, antigo e fiel amigo de Souto Filho, residiu e instalou a Tipografia Moderna, que editou os seus dois jornais, em épocas alternadas: Diário de Garanhuns, posteriormente Garanhuns Diário, com tantos e relevantes serviços prestados ao município e a região.

Antes de editar os dois jornais de sua propriedade, Dario Rêgo trabalhou com Souto Filho na edição de O Sertão, de propriedade do ilustre chefe político, que, mais tarde, vendeu à Diocese as máquinas e oficinas gráficas que vieram a editar, em 1931, o jornal O Monitor.

Para os mais jovens eu diria que o Coronel Bimbe Tororó e o Major Antônio Pedrosa, a partir da Fazenda da Várzea, foram grandes impulsionadores do progresso de Garanhuns.(Foto do Livro "Os Aldeões de Garanhuns" de Alberto da Silva Rêgo. Octávio Rêgo, ao centro. À esquerda Dário Rêgo(filho) e os bisnetos: Maria da Penha, João Jerônimo: À direita: Zózimo S. Rêgo(nora) e os bisnetos: Cecília, Estela. Na 1ª fila: Alba Lucí, Dário das Neves, Mário Fernando, Álvaro Eduardo, Aloísio Fernando, Antônio Octávio (ano de 1950).

Tuesday, August 21, 2012

RECORDANDO


Firmo de Santana

Acordes de violões nas ruas sombrias...
As serenatas que já vão distantes...
Valsas que embeveciam... As melodias
Que não esqueço, nem os priscos amantes.

O saudoso "Xixi" e seus delirantes
Sopros no saxofone. Que magias
De pulcra execução saiam constantes
Do almo Mago naqueles longes dias.

José "Fogueteiro" e "Chico Bombardão",
Ramalho, o saudoso Alfredo Leite,
Quatro titãs do nosso bom tempão.

Recordar essa gente é ter canteiros
De prazer, de boa música, o deleite
De escutar uma endecha de CALHEIROS.
(Foto do Livro "Os Aldeões de Garanhuns" de Alberto da Silva Rêgo. Alfredo Leite Cavalcanti e sentado o Poeta Catulo da Paixão Cearense, ano de 1938).

Monday, August 20, 2012

RETRATOS



Rinaldo Souto Maior 11/1986

Ao poeta e "Mochileiro" José Inácio Rodrigues. (in memoriam)

Na Boa Vista vejo, no alto da casa
paroquial, bebendo vinho de missa,
Padre Cornélio e o boêmio Zé catão
Na voz langrosa de Wilson da Mota
o poeta intangível de Hélio Peixoto,
ressuscitando todos ouvidos:
"Garanhuns terra dos seus avós, terra
das manhãs frias e dos bonitos arrebóis"...
Ao fundo acordes musicais do violão de
Euclides Pernambuco.

Velhos retratos malogrados e pelo
tempo amarelecidos que, de repente,
em minhas lembraças, tomam forma.
Revivem fortes cores, multicoloridas,
nas entranhas recordadas.
Esses retratos...
Refazem imaginações e espectros do passado.

Conta-corrente acesa apenas pela chama
temporal do sucesso, o mundo somente
reconhece êxitos e não perdoa malogros,
na verdade de um filósofo chinês.

Contabilização difícil do passado com
o presente, na aritmética heterogênea das pessoas.
Que se somam menos.
Então poeta que em São Paulo nasceste de migrantes
nordestinos, "mochileiros" quatrocentões da boa cepa
garanhuense?
Quantas coisas tens recitado em todos entreveros
das lutas empreendidas, das vitórias auferidas, e dos
malogros também amargados?

Tudo isso na multiplicação de tantos "amigos meus,
amigas minha" no refrão do boa-noite radiofônico em que
evocas o passado, perenizando-o no presente!
(Na foto: Antiga Padaria Royal, hoje Padaria Suiça).

Sunday, August 19, 2012

O VELHO GENERAL


José Rodrigues da Silva (in memoriam)

Cabelos brancos e carapinhados, lábios grossos e maxiliar inferior visivelmente saliente, surgiu nesta cidade, lá pelas bandas do Sítio Várzea, um preto velho que atendia pelo apelido de General. O mundo inteiro vivia a tirania da segunda guerra mundial. A rapazeada dividia-se em opinião, muitos procuravam o Exército para voluntariamente irem à guerra; outros fugiam para lugares mais distantes, enquanto isso, várias nações pegavam fogo. Nos dias de domingos ou feriados, as pessoas adultas reuniam-se para falar sobre os acontecimentos bélicos, ali, também, estava o velho General. Com seus oitenta anos e não perdendo tempo, General dizia haver servido na Guerra do Paraguai, ao lado do General Osório:

-Combati valentemente as forças de Solano Lopes e trouxe a vitória para o Brasil. Estou no final da vida, mas se me derem as mesmas armas daquele tempo, irei sozinho para a Alemanha, arrancar de unhas o bigode de Hitler.

Essas aventuras contadas pelo preto velho, valeram-lhe o apelido de General. General era diferente de muitas pessoas que se zangam quando tratadas por apelido. Ele quando passava por alguém que lhe chamava de General ao invés de ficar zangado balançava a cabeça em sinal de agradecimento, como que exigindo respeito. Quando alguma pessoa perguntava por sua origem, respondia:

-Sou filho de Africanos, pertenço a raça que colaborou para o engrandecimento deste país durante sua colonização.

General não respeitava os anos, trabalhava de sol a sol no eito dos fazendeiros de café da região, e quando tinha alguma folga cuidava de sua pequena roça, o espojeiro, como ele mesmo chamava. Os anos foram passando e com eles foram desaparecendo o vigor físico do velho guerreiro. Um certo dia General recebeu um ultimato de um certo fazendeiro que o mesmo teria vinte e quatro horas para deixar a fazenda. Aqui não tem lugar para quem não pode trabalhar.

No mesmo dia, às quatros horas, de alforje às costas se despedia do Sítio Várzea e também daquele para quem na mocidade dera tudo para seu enriquecimento. Sem forças e sem dinheiro para realizar uma grande viagem, General se localizou numa casa velha existente na Rua das Tábuas, nas proximidades da Vila Maria pertencente ao Capitão Tomaz da Silva Maia. Alí seria o local ideal para o preto velho que carregava noventa anos pedir esmolas. Meses depois, desabou uma parede do casebre onde residia. Como reconstruir, se não dispunha de um tostão, e as esmolas que recebia davam somente para alimentação. De repente, veio-lhe uma idéia, pedir ao prefeito do município uma ajuda de alguns tijolos e telhas retiradas das construções da prefeitura. Na época, o prefeito era Dr. Celso Galvão que embora sendo civil, era militarista de coração. Apoiado num cacete que lhe servia de pernas, subiu a ladeira do açude e veio em direção a prefeitura falar com o interventor. Com grande esforço conseguiu chegar até ao local desejado. Mas, como falar com Dr. Celso Galvão se ninguém legava para sua pessoa. Triste e de cabeça baixa, sentado nas escadaria do prédio, esperava uma difícil oportunidade para se avistar com o chefe do município. De repente, inesperadamente, passou por ali o Jornalista Ulisses Pinto que ia em direção ao gabinete do prefeito. Como todo mundo sabe, Ulisses sempre foi o maior encrenqueiro político desta cidade. Com medo das encrencas de Ulisses, Celso Galvão lhe dava passagem livre. Penalizado, o Jornalista perguntou ao velho General o que estava fazendo aqui, e de lágrimas aos olhos, General contou a Ulisses a razão de sua vinda a prefeitura. Minutos depois estavam chorando os dois. Foi ai que Ulisses falou : O senhor fala agora mesmo com o Dr. Celso.
Como sabia do prestígio que Celso Galvão desfrutava nos meios militares, ao entrar no gabinete, disse:

- Dr. Celso, o General faz uma hora que espera para falar com o senhor.

Dr. Celso pulou da cadeira, chamou o contínuo e disse:

- Arrume imediatamente o gabinete que eu vou receber um General.

Ulisses Pinto por haver mentido procurou dar o fora, porém minutos depois foi introduzido no gabinete do prefeito, o preto velho. Celso ficou danado de raiva com Ulisses, porém, como já o conhecia nada procurou fazer, entretanto atendeu ao General de mentira. Assim viveu General no meio da sociedade sem ser visto por ela. Talvez, quem sabe, seja hoje, no céu um General de verdade. (Fonte: Livro "Almas Anônimas", foto: antigo Cine Glória Avenida Santo Antonio, século passado, arquivo pessoal).

Friday, August 17, 2012

CANÇÃO


Ao Dr. Souto Filho

Belarmino da Costa Dourado

Acorda mulher formosa,
Junto as águas de crystal
A lua já beija a rosa,
Num beijo nupcial.

Entre as molhas orvalhadas
Dormem os sylphos sonhando,
Ao som brandas toadas
Dos bardos, que vão cantando.

Acorda, o rio, o outeiro,
Se desata em mil canções,
Desde as trovas do barqueiro
Aos cantos das solidões.

Vém em minha alma os fulgores
Plantar da fé que preciso;
Sorrirás, flor dos amores,
Basta-me a luz de teu riso.

Cresce a noute, abre a janella
Que o luar banha de luz;
Desperta, é linda a aquarella
Que a natureza produz.

Já da aurora a branca estrella
Se esvae, qual pallida flor.
Ficas dormindo donzella,
Quanto tudo diz amor?

Acorda, etherea falúa,
Num voar subtil de luz,
Lá do céo descendo a lua.
Boia nos lagos azues.

Vém ouvir a voz plagente
Da guitarra harmoniosa,
Que além se ouve dolente
Na noite silenciosa.

Vém ouvir, que a noute expira
No seio da creação,
"Na extrema corda da Lyra,
A derradeira canção".
(Fonte: Jornal "O Sertão" maio de 1919.)