Friday, June 15, 2012

FESTAS JUNINAS EM GARANHUNS NO INÍCIO DO SÉCULO PASSADO


Ao anoitecer apareciam as fogueiras, fogos para as crianças, fogos-de-visita, girândolas em todas as praças e folguedos diversos. Acendiam-se as fogueiras em frente à Matriz, nos pátios das escolas, na "Novo Século", nas casas dos Tenórios, dos Campelos, dos Soutos, dos Jardins, Travessa "Doutor Garibado", no Beco do Engole-Homem, na Boa Vista, até na porta da Cadeia Pública. Cada uma destas fogueiras era defendida pelo grupo de parentes, dos moradores e dos amigos das famílias ali residentes. Elas, na sua maioria, eram protegidas com morteiros de tabocas, bombas de todos os tipos e as "bichas de rabiar", como eram conhecidos os busca-pés de João Fogueteiro, que ardiam e serpeavam pelo chão, jogados contra os que atacavam. Os atacantes formavam um verdadeiro cerco, com bombas ensurdecedoras e busca-pés menores. Se os que guardavam as fogueiras não suportavam o ataque e fugiam, ela seria desmanchada e o principal responsável fugia envergonhado. Havia muitos fogueteiros especializados em busca-pés de assobio. Eles faziam essas peças com tabocas de bambus, ainda quase verdes, e conservados em breu por vários dias. Os busca-pés feitos com tabocas finas eram os mais perigosos, pois perseguiam as mulheres, porque leves e com deslocação do ar, provocada por uma corrida de muitos panos, eles acompanhavam a "dona" até terminar a combustão. E como também sabiam correr as mocinhas de então...
Na Vila de São João, poucos quilômetros da cidade, festejavam o seu Patrono com mais simplicidade, com uma festa mais religiosa e mais familiar, com uma bela novena. Missa cantada, desobriga e uma procissão do Padroeiro, pelas duas únicas ruas da vila. Não se via nenhuma rede-de-arrasto. E tinham uma graça especial aqueles festejos, pois seria numa noite mais fria do ano, com garoa caindo e enfeitando as árvores e serras que contornam a localidade. Aquela gente boa e simples transmitia a sua alegria natural aos que iam assistir às festas do seu Patrono. Em quase todas as casas soltavam-se balões e enfeitavam-se a sala da frente e os alpendres com bambus e folhagens diversas, flores agrestes, sabugueiros aromáticos e folhas de canela. Em jarras de barro colocavam rosas, alecrim e manjericão. Que coisinhas boas tinham as casas das famílias de São João, naquela noite. Que umbusada boa, à meia-noite, acompanhada de pamonha, cangica de milho verde e mungunzá, e o indispensável doce de côco.
E com saudades daquele tempo, o nordestino repetia os versos do seu colega Lopes:
"A fogueira foi pegando,
A festa se animando.
Chegou gente como quê
Os balões iam subindo,
As môças passavam rindo...
Mas eu só via Você;
Sem temor e sem receios,
Meus olhos, a tudo alheios,
Tinham ido apreciar
Uma festa mais bonita,
Que havia no teu olhar".
Guardando sempre na lembrança os quadros singelos da sua vida na cidade bucólica do agreste nordestino, muito principalmente do tempo de criança, lembrava-se agora Serapião das fogueiras de Tônia Vieira, que lhe parecem reproduzidos, ainda pegando fogo, nos versos simples de Batista Crêspo, tão conhecidos na sua terra, naqueles idos dos matutos ingênuos:
"Ao clarão da fogueira, as filhas do Rapôso
vão fazendo correr os copos da queimada...
as batatas, o aipim, o melado gostoso,
no alpendre que é toda essa noite encantada.
Meu querido São João,
do vosso triste deserto,
fazei meu santo, fazei
que a minha sorte dê certo".
Distribuindo às moças os papeizinhos coloridos, com galhos de alecrim, Tônia Vieira, dava começo às festas, com a distribuição das comedorias e leitura das sortes de São João. Tudo ali era ingenuidade e não havia enxerimentos.
(Foto: Festividades em frente a Matriz de Santo Antônio no início do Século passado - Fonte da Pesquisa: Livro "Um Nordestino" de José Pantaleão Santos).

Thursday, June 14, 2012

À Memória de Dom Adelino Dantas


Almerinda Espíndola Rodrigues

Nesta tarde saudosa,Adicionar imagem
Neste repouso de amor,
Se impõe a caridade
De um grande e nobre Pastor!

Foi o Bispo Dom Adelino,
Que construiu para os velhinhos
O "São Vicente de Paulo",
Com todo amor e carinho.

Ao chegar em nossa terra
Foi logo sua intenção,
Construir para os velhinhos
Um leito acima do chão!

Uma homenagem, um dever
Tem Garanhuns muito querida,
Para quem patrocinou
Tamanha obra na vida!

Quantas passadas não deu
Na construção deste Templo,
Ao partir Dom Adelino,
Legou-nos um belo exemplo!

Dotado de ricos dons,
Sem orgulho ou vaidade,
Fiel soldado de Cristo
Nos deixou muitas saudades!

As Irmãs tão consagradas
Dom Adelino entregou,
Esta turma de velhinhos
Por quem tanto trabalhou.

Velhinhos que já sofreram
As agruras desta vida,
Mas que aqui receberam
Esta tão boa acolhida!

Proteção e amizade,
Cuidados, amor e carinho,
As irmãs de caridade,
Dispensam à estes velhinhos!

Como Abraão foi chamado
À terra Celestial,
A Dom Adelino foi dado,
Uma vida eterna!

Lembramos de Dom Adelino
Com gratidão e carinho.
Queira Deus abençoar
Este "Abrigo de Velhinhos".

Seu retrato nesta casa,
Recordará o seu nome
Todo bem que fez aqui,
Jamais o tempo consome.

Salve lar abençoado
Por estas irmãs cuidado,
Com carinho e com fervor.
Que nesta cidade seja,
Santa casa em que se veja,
De Cristo a obra de amor!

(Na foto: 1º Palácio Episcopal de Garanhuns, construído para o 1º Bispo de Garanhuns Dom João Tavares de Moura - 1919/1928, hoje no local Mosteiro de São Bento).

Sunday, June 10, 2012

Sete Colinas


Marcílio Reinaux

O sol dardeja sua luz
Sôbre teus ombros lisos;
As flores te perfumam e
Te cobrem com halo peren;
As colinas te apertam em
Amplexo humano e amigo.

Descontraída te saúda a lua,
Por trás de espessas nuvens.
Modorrento chega o frio e
Te abraça por baixo dos
Teus agasalhos.

Gorgéiam os pássaros nas
Copas das tuas árvores;
Do nectar dos deuses os frutos
Da Natureza umedecem a tua boca.

Cantam teus filhos a tua
Canção. O teu canto é o
Nosso canto de vitória.

Rendemos a ti nossa homenagem.
A teus pés e a ti Garanhuns,
Terra das Sete Colinas,
Enevoada pérola fugidia.
(Foto: Centro Cultural Alfredo Leite Cavalcanti).

Friday, June 8, 2012

"ENCANTO"



Carlos Janduy

Teu sorriso é franco,
Tua voz é mansa,
Teu olhar é branco,
Te olhar não cansa.

Tua boca é chama,
Teu abraço é louco,
Meu amor te ama,
Te dizer é pouco.

Tua pele arranha
Minha mão à toa,
Tua paz me ganha,
Minha alma voa.

Ah! Como eu te quero,
Ah! Te amo tanto,
Pois é tão sincero
Todo o teu encanto.

Sunday, June 3, 2012

O Trabalho


José de Vasconcelos Pontes (em memória) Julho de 1983

A maior ventura do ser humano está no trabalho. O trabalho edifica, constrói, educa, diverte. Sentenciava o conhecido escritor Ramalho Ortigão: "O mais seguro meio de cada um amar verdadeiramente a Pátria é simplesmente amar a sua profissão". Subtendendo-se, naturalmente, que essa profissão seja honrada. Patriotismo é cada um trabalhar no ofício com fé. O trabalho honesto traz tranquilidade e uma vida feliz de toda família. O amor ao trabalho, por mais simples que seja, vivifica, transborda a alegria, o acontecimento. Significa uma dádiva para aqueles que compreendem estar servindo ao próximo.

Euclides da Cunha escreveu "Os Sertões" num ranchinho de zinco, à margem do rio Prado, nos momentos que lhe dispensava a tarefa de construir uma ponte sobre esse rio. O útil ao agradável, vivemos sempre a depender do outro, por mais simples que seja, participa, comunga do mesmo ideal. Somos um conjunto harmonioso com a mesma finalidade: a sobrevivência, a nossa alimentação depende do pobre que no sol causticante planta a semente, aquele maltrapilho, desconhecido, rejeitado que não frequenta "sociedade" não participa da vida ativa de uma cidade, não aparece nos jornais e faz parte do sustentáculo do Estado. Parece um paradoxo, mas é a realidade... o sapato, a roupa, a comida, tudo isso passa por um processo difícil, de lutas e sacrifícios para que possamos conjuntamente dentro de um mundo alegre, viver a vida; não vegetar.

Precisamos de todos por mais humildes que seja; o leite, o café, são saborosos. Passam por processos fabricados por humildes, e chegam as nossas mãos tão perfeitos. Somos unidade em comunidade. Somos povo sem distinção de raça ou de cor... mas, destaques surgem por toda parte, desconhecendo o valor de muitos. Somos humanos com defeitos e virtudes, fraqueza e coragem, luta e sacrifício. Dependemos de todos porque formamos a corrente coesa trabalhando com a mesma finalidade; a sobrevivência.

O trabalho por mais simples que seja tem o seu valor. Precisamos incentivar o simples para que ele sinta a sua importância como homem honesto e trabalhador. Recordamos Rui Barbosa: "O patriotismo praticamente consiste sobretudo, no trabalho".

Vamos nos habituar ao trabalho, sinta que de seus esforços depende o progresso e a esperança do País. Viva ocupado e sinta o proveito daquilo que manuseias. Se estiveres cansado, pára um pouco ou muda de atividade, tudo voltará ao normal. Somos simples fragmentos dispersos, procurando uma associação. Pense em areia movediça, equipare os fragmentos, perceba de um prisma diferente. Analise, raciocine, medite um pouco... será que entendes? faça um retrospecto e veja que tudo aquilo é complexo; desigualdade.

Trabalhe sempre com amor e dedicação, faça dele a sua vida e seu divertimento. Você precisa deixar vestígios de sua passagem. Procure fazer tudo conscientemente, seja responsável pelos seus atos, não tente "tapar o céu com a peneira", pois você sabe distinguir o certo do errado. Fique tranquilo com sua consciência, pequeno fragmento indispensável, pois você nasceu para cumprir sua missão. Com amor e dedicação, coragem acima de tudo acreditar, ter a certeza e confiança no amanhã.(Foto: Gynásio Diocesano em 1927).

Saturday, June 2, 2012

HINO DE PERNAMBUCO - ALCEU VALENÇA

Friday, June 1, 2012


ORAÇÃO PROFERIDA POR LUIZ SOUTO DOURADO NA CÂMARA MUNICIPAL DE GARANHUNS EM 29 DE NOVEMBRO DE 1983, EM COMEMORAÇÃO AO CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DO SEU PAI O EX-PREFEITO EUCLIDES DOURADO.

Senhor Presidente da Câmara dos Vereadores de Garanhuns.
Senhores Vereadores.
Meus Senhores e minhas Senhoras.

Comove muito a mim a à minha família está homenagem desta Casa a Euclides Dourado.
De uma das três vezes onde ele ocupou o cargo de Prefeito, saiu justamente da Presidência do antigo Conselho Municipal. Depois como vereador eleito em várias legislaturas, voltou a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal. Identificado e participante dos dois Poderes, os quais exerceu com eficiência, zelo e probidade, esta homenagem se ele fosse vivo haveria, estou certo, de tocá-lo de forma mais profunda. Foi aqui que ele começou o seu aprendizado o seu caminho, a sua meta; aqui começou a sentir os primeiros sinais, as primeiras manifestações, o seu noviciado de dedicação quase religiosa aos problemas da sua terra.

Em artigo publicado no Diário de Pernambuco, a respeito do Centenário de Euclides Dourado, assim nos expressamos:

"O menino vira o seu Pai, que se vivo fosse completaria 100 anos agora a 26 de novembro, sair da sua casa para entregar aos revolucionários de 30 as chaves da Prefeitura de Garanhuns, que ocupava pela terceira vez; vira também no dia seguinte, ele sair normalmente, tranquilo e sereno, a visitar amigos e parentes. Tinha certamente adversários (aquela revolução empolgava todo mundo), mas inimigos, não. Deixara uma obra administrativa que ainda hoje, depois de 53 anos é reconhecida e louvada (e esta homenagem da Câmara dos Vereadores, é um reconhecimento que muito honra a sua memória). Dela tem falado jornalistas ( como José Francisco de Souza, Humberto de Moraes, Ulisses Peixoto Pinto), cronistas do seu tempo, como Alfredo Vieira, e historiadores de Garanhuns, como João de Deus Dias de Oliveira e Alfredo Leite Cavalcanti.

Diz este último, no volume II da sua "História de Garanhuns" que "o Prefeito Euclides Dourado fez tornar transitáveis por veículos, automóveis, as estradas que ligavam a cidade às vilas e municípios próximos; que construíra a primeira avenida; que fizera "o primeiro jardim público" e "um Parque Municipal"; que com ele "foi fundado o bairro do Arraial (hoje Heliópolis) ficando abertas as avenidas e ruas; que doou terrenos para as construções mais importantes do novo bairro: o Colégio 15 de Novembro e o Sanatório Tavares Correia; que "foi construída a Praça Dom Moura"; que "realizou a primeira exposição de café"; que fez chegar "o primeiro avião" que desceu no interior do Estado de Pernambuco; que atraiu a primeira empresa de transporte coletivo, "já com a denominação de Empresa Auto Viação Garanhuns"; que "foi construído o Cemitério São Miguel"; "que construiu o atual Matadouro", conseguindo ainda com o Governo Estadual o Patronato de Menores e a Estação Experimental de Café, estas duas realizações citadas no livro de Alfredo Vieira, "Garanhuns do meu tempo".

Mas não obstante tantas obras, a Revolução de 30 fizera do meu Pai ("Ai dos Vencidos!") um exilado no seu próprio País e Estado, forçando-o, pelo ambiente que se criou, a transferir-se para Recife com a família numerosa (nove filhos, alguns menores ainda); aqui residimos dois anos, a princípio, num casarão alugado à família Barreto Campelo, na Praça da Torre (a casa ainda existe), depois na Rua da União, por trás da Assembléia Legislativa, numa casa já demolida.
O "exílio" começava a alongar-se, a saudade começava a doer. Meu Pai sempre dizia e escreveu numa carta que "a cidade, com as suas montanhas e o seu céu, não tinha culpa de nada". Foi quando voltamos. E a cidade, como a desculpar-se, recebeu o antigo Prefeito, que nela havia nascido quando a cidade tinha apenas 8 anos, sendo quase coincidentes os seus centenários, com respeito, carinho e novas missões.

Fez dele então Presidente da Associação Comercial de cuja administração resultou o prédio próprio da entidade; Presidente do Esporte Clube, quando realizou importante Feira de Amostras com o pai do hoje publicitário Carlos Leite Maia; Presidente da Sociedade Cultural Musical, recebendo a cidade nomes nacionais, como Carmem Gomes e Reis e Silva; voltou à Câmara dos Vereadores, que antes já presidira. Se teve mágoas da cidade nunca demonstrou, deixando marcas em cada nova missão que lhe era confiada.

Em 37, na instauração do Estado Novo, meu Pai foi chamado ao Recife, correndo célebre a notícia que fora nomeado Prefeito. Do telegrama que passou à família aquela palavra estranha, peremptório, ficou na minha lembrança, vagando, sem sentido, sem significado. Boa coisa não era. O que eu não soubera ler no telegrama, estava escrito na tristeza do rosto do meu Pai. É verdade que muitos amigos foram recebê-lo na entrada da cidade. Mas aquela alegria aparente dos amigos não enganava a sensibilidade do menino: meu Pai voltara derrotado, sem o cargo de Prefeito; o Interventor Federal cancelara o Ato. Dera-lhe um cargo melhor em vencimentos, o de Presidente do Instituto de café de Pernambuco. Mas não era o cargo que ele desejava; não sei mesmo qual trocaria para ser Prefeito da sua terra. Acho que nenhum mesmo.

Nunca andou armado; nunca levantou a mão ou a voz para ninguém. Foi sempre humilde, mesmo no poder. Popular, nunca foi visto sem paletó ou gravata. Mantinha a mesma postura, tanto nas solenidades como nos carnavais, sempre junto à banda de música que criara. Cavalheiro e educado até nos momentos finais. Na verdade foi mais um administrador no melhor sentido de hoje, do que um coronel (como aliás era chamado) à moda antiga.

Anos depois (1969), já tendo sido deputado várias vezes e Secretário de Estado, resolvi disputar a Prefeitura de Garanhuns. Na opinião de uns, eu iria andar para trás; para outros iria descer. Somente eu sabia o que teria: além do desejo de servir, queria ser não o Prefeito que meu Pai fora: para tanto julgava-me incapaz, mas o Prefeito que ele não fora em 37; queria trocar pelo voto popular o ato de nomeação, tornando sem efeito. Só a alegria que senti poderia resgatar a tristeza que vi no rosto do meu Pai. Agora, posso imaginá-lo sorrindo a entrar no seu Centenário.

Senhor Presidente, Senhores Vereadores, Minhas Senhoras e Meus Senhores:

A família Euclides Dourado, agradece, comovida, esta empressiva homenagem à memória do seu Chefe, afirmando nesta oportunidade que o seu amor por Garanhuns, tantas e tantas vezes demonstrado, deixou marcas profundas nos seus filhos e netos, que saberão transmitir às novas gerações, de modo a podermos comemorar sempre juntos, a cidade e a família, novos centenários.

Muito Obrigado.

(Foto: Transmissão do Cargo de Prefeito de Luiz Souto Dourado para Amílcar da Mota Valença, em 31 de Janeiro de 1973, na Prefeitura Municipal de Garanhuns).